"Women Who Look Ahead", de Monica Stewart

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Pense nisto...

Foto tirada daqui


"O tráfico negreiro transatlântico é a maior tragédia da história da humanidade, por sua amplitude e duração."

Jean-Michel Deveau

Terça-feira, Outubro 27, 2009

UM POETA E UM POEMA (4)

No poema "Os herois", Conceição Lima recorre às lembranças do passado para onde "recuam em silêncio as estátuas". A poeta convida o leitor a uma reflexão sobre a realidade de seu país no período pós-independência, uma vez que vinte e nove anos se passaram (o poema foi tirado do livro "O útero da casa", de 2004), mas alerta para o fato de que boa parcela dos "mortos que morreram sem perguntas", através de seus descendentes "regressam devagar de olhos abertos".

E, enquanto as estátuas silentes são reconhecidas pela "praça" por seus feitos valorosos, em "paisagens longínquas", os verdadeiros herois, os santomenses do dia-a-dia, clamam pelo resgate à dignidade "indagando por suas asas crucificadas". Onde está a tão sonhada, almejada, batalhada liberdade que a independência traz? Ou, pelo menos, deveria trazer...

Os Herois
Conceição Lima

Na raiz da praça
sob o mastro
ossos visíveis, severos, palpitam.
Pássaros em pânico derrubam trombetas
recuam em silêncio as estátuas
para paisagens longínquas.
Os mortos que morreram sem perguntas
regressam devagar de olhos abertos
indagando por suas asas crucificadas.

Sobre a autora: Maria da Conceição Costa de Deus Lima, em 1961, nasceu em Santana, na ilha de São Tomé, onde fez os estudos primários e secundários. Estudou jornalismo em Portugal, Em São Tomé e Príncipe trabalhou e exerceu cargos de direção na rádio, televisão e na imprensa escrita, tendo fundado, em 1993, o já extinto semanário independente "O País Hoje".
Atualmente reside Londres, onde trabalha como jornalista e produtora dos serviços de Língua Portuguesa da BBC.

Referência: LIMA, Conceição. O útero da casa. Lisboa: Caminho, 2004.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

UM POETA E UM POEMA (3)

A poeta da vez é Christina Ramalho. Carioca, nascida em 1964, a Chris é mestre e doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além de artista plástica (dona de belíssimas pinturas!), é também escritora de mão cheia: ensaísta, cronista, contista, poeta, crítica literária, tendo vários livros publicados.

Foi minha professora de Literatura no curso de Letras. É, para mim, um exemplo de profissional e, acima de tudo, de ser humano. (Imagem tirada daqui).

Sina
(Christina Ramalho)

Mundo, mundo, vasto mundo,
e eu que me chamo Raimunda,
feia de cara, boa de bunda,
terei uma solução?
Será que esta minha sina
de guardar a forma feminina
deixa mostrar em meu verso
quão vasto é o meu coração?

Na face trago as lágrimas
de cebolas e de paixões
e minhas pernas, fumês e amarelas,
passam no bonde das estações.
Amo inventando penas,
me ensinaram a amar assim...
Mundo, mundo, vasto mundo,
o que será que será de mim?

Peço a Deus que me conceda
nada pedir tudo ver.
Duro viver nesta terra estranha
onde ter entranhas faz padecer.
Vasto, vasto, mundo vasto,
te pergunto e me desgasto:
se o versejar é meu pasto,
terei eu o que comer?

Espero resposta deitada
de flanco sobre o lençol,
nos sonhos eu viro onda
e o sonho é meu farol.
E se disseres - levanta! -
levanto e vou para a faxina.
E se disseres - derrama! -
derramo em versos minha sina.

Mundo, mundo, amargo mundo...!
Mas doce é minha intenção
de velar tua amargura
com rimas de compreensão.
Mundo, mundo, amargo mundo,
não veja nisto submissão.
O que eu quero é uma voz
gritando suave como canção.


(In A Lírica Brasileira do Século XX, p. 136, de Anazildo Vasconcelos da Silva).

Saiba mais sobre a autora aqui e aqui

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

UM POETA E UM POEMA (2)

Noémia de Sousa (1926-2002) – Moçambique

Noémia deixou Maputo com destino a Lisboa em 1951, tendo dali emigrado para Paris em 1964. Regressou a Lisboa em 1975, onde residiu e trabalhou como jornalista e tradutora até o seu falecimento em dezembro de 2002.[1]

Seu poema Magaiça[2] aponta para o trabalhador moçambicano que emigrava para as minas do Rand ou compounds (áreas de exploração) da África do Sul. Sonhando com uma vida melhor, retorna à terra na condição em que partira, miserável como sempre.

No contexto dos anos 40-50, a poesia funcionava como testemunho de uma condição humana e denúncia social e política, ainda que sob a forma de lamento ou piedade, pois era a fase da “poesia de combate”. Havia nesse período uma conscientização plena da Negritude --contrária à estética burguesa e imperialista-- que Noémia assume num interessante jogo linguístico: utiliza estrangeirismos para identificar uma tentativa de aculturação que não vingou (“o ser deslocado / embrulhado em ridículo”); a língua portuguesa, a do colonizador, para que essa denúncia pudesse atingir um grande número de leitores; e a língua materna, a língua da infânica, deixando claro que África é o seu lugar.

Magaíça
(Noémia de Sousa)

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra
[3],
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios,
tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse
[4], voltou!
E com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado,
embrulhado em ridículo.

Às costas -- ah, onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça? --
trazes as malas cheias do falso brilho
dos restos da falsa civilização do compound
[5] do Rand[6].
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
à cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone
[7]...

A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.


[1] Informações biográficas retiradas de http://koluki.blogspot.com
[2] Magaíça - mineiro moçambicano regressado da África do Sul
[3] Mamparra - pessoa rústica
[4] Nhanisse - deveras, na verdade
[5] Componde - os acantonamentos ou «reservas» de trabalhadores na África do Sul (do inglês compound); barracão, camarata
[6] Rand - (top. sul-afr.) Unidade monetária principal da África do Sul e da Namíbia
[7] Jone - abreviatura de Joanesburgo = Djoni (= John, Johne) - minas do Rand.

Sábado, Agosto 08, 2009

UM POETA E UM POEMA

Inicio hoje uma série que chamarei "Um poeta e um poema".


Ana de Santana é a poeta de estreia com um belíssimo poema que denuncia um tempo obscuro de guerra e de violência do qual foi vítima. Apesar de tanto sofrimento, o último verso de "Ralhete" nos dá uma pista clara da sensibilidade e pureza de sentimentos que não se abalam.

Ralhete
(Ana de Santana)

Não me cobres
histórias de adormecer
quando o obus
rebenta no quintal
não me peças luz
se as janelas estão trancadas
não me lembres dos traumas
nem fales de fantasmas
quando eu sonho com
todos os companheiros
que sinto perder na batalha
a cada tempo
não me perguntes sobre o amor
que não tive
nem pelo coração, que esse,
faz tempo, jaz gelado
na granada do meu peito.
Porque procuras os meus olhos
se há muito foram perfurados
pelos estilhaços?
Como te atreves a querer
que te dê a mão se ainda agora
a ofereci em troca de pão?
E, sobretudo, não me perguntes
pelo que não disse
pois a minha boca
há muito se fechou à força
do fuzil do homem
que em mim te semeou.

Sobre a autora: Ana de Santana é consultora e vive actualmente entre Londres e Lisboa, publicou «Sabores Odores & Sonho», poesia, União dos Escritores Angolanos (UEA), 1985. Leia mais


Sexta-feira, Julho 31, 2009

Fotopoema 2

Sexta-feira, Julho 17, 2009

Sisters in Spirit

Este é mais um belíssimo trabalho que posto aqui de Monica Stewart, uma artista plástica norte americana, da Califórnia. Econtrei-a aqui quando procurava gravuras de temas africanos para "dar acabamento" a um trabalho de final de curso.


Dedico este post especialmente à Koluki , minha 'irmã em espírito', e à Sailor Girl, uma blogger que também muito considero e respeito. Visitar a 'casa' de ambas é sempre um momento prazeroso.


Um beijo carinhoso as duas


Segunda-feira, Julho 06, 2009

PRÊMIO LEMNISCATA


“O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogues que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.»

Sobre o significado de LEMNISCATA: «curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante».

Lemniscato: ornado de fitas Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores. (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)

O símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.”

Numa demonstração INFINITA de amizade e carinho recebi, da mAna KOLUKI, esse prêmio.

Gostaria de passar a corrente a três lindas (no sentido mais amplo dessa palavra) bloggers:

Sábado, Julho 04, 2009

"Amado Michael"

Poesia de Tom Zé em homenagem a Michael Jackson.


Negro da luz que desbota branco
Tanto talento tormento tanto
Tanta afronta de pouca monta.

Eia! virtudes em farta ceia
Todo encanto que pode o canto
Toda fiança que adoça a dança.

Que deus nos furta vida tão curta?
Mundo lamenta: ele mal cinquenta!
A ninguém ilude essa bruxa rude.

Paroxismo desse Narciso
Que achou desgosto no próprio rosto
E apedrejou-se com faca e foice.

Avança a rua (uma dor que dança)
E em seus telhados mandibulados
Requebra os hinos do dançarino.
Niños, rapazes, se sentem azes
Herdeiros todos e seus parceiros
Revelam parque, porto e favela.

II

Da Grécia três te trouxeram Graças
Arcas repletas de belas artes
Arcas que deram ciúme às Parcas.

Que luz trarias tu, mitologia,
Para um tal desatino de destino
Que o espandongado toma por fado?

Porque o povo grego disse que
Se a hybris o herói consigo quis,
Se condiz ao lado dela ser feliz
Ele mesmo será pão e maldição
Enquanto gera para os olhos de Megera.


http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u587877.shtml


Sobre o autor: Tom Zé, nome artístico de Antônio José Santana Martins, nasceu em Irará, Bahia, em 11 de outubro de 1936. É compositor, cantor e arranjador, sendo considerado uma das figuras mais originais da música popular brasileira. Participou ativamente do movimento musical conhecido como 'Tropicália' nos anos 1960 e se tornou uma voz alternativa influente no cenário musical do Brasil. A partir da década de 1990 também passou a gozar de notoriedade internacional, especialmente devido à intervenção do músico britânico David Byrne.(http://pt.wikipedia.org/wiki/Tom_Ze)

Domingo, Abril 12, 2009

"Caruso", numa belíssima interpretação de Zizi Possi

Esta AQUI é especialmente dedicada a uma amiga, virtual, por enquanto. Uma pessoa a quem muito admiro. É forte e sensível, e, acredito, por isso, escreve com maestria...
É para você, KOLUKI, com todo meu carinho. Espero que goste!

"Ave Maria", de Charles Gounod, por Jorge Aragão

Fantástico este arranjo de Jorge Aragão para a "Ave Maria" de Gounod! O erudito e o popular divinamente juntos!
Como alguém já disse, com o que concordo plenamente, só a arte nos salva...
Então, deixo aqui a todos vocês o meu desejo de uma Páscoa Feliz.
Happy Easter to you all!

Segunda-feira, Março 16, 2009

"Podres Poderes", música de Caetano Veloso

Essa música foi lançada há exatos 25 anos, mas seu tema é sempre recorrente e atual.

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais...

Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...

Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...

Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...

Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...

Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...

Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...

Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades,
Caatingas e nos gerais...

Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...

Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...

Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!

Domingo, Março 15, 2009

"Incoerência católica"

"Os males que a igreja causa em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicos".
Simplesmente fantástica a posição do Dr. Drauzio Varella, em seu artigo Incoerência Católica, publicado no jornal Folha de São Paulo, sobre a posição da igreja no caso da menina de 9 anos, que vinha sendo, por três anos!, molestada sexulamente pelo padrasto até conseguir engravidá-la de gêmeos.
No texto, como sempre, impecável, o doutor aponta sua indignação não somente como médico, mas também --e sobretudo-- como ser humano. E humanidade foi exatamente o que faltou à igreja...
Tudo já foi dito sobre esse assunto. Quero apenas deixar claro (para quem leu o post de 09/03) que a excomunhão em si, para mim, nada significa. Absolutamente nada. A indignação é pela falta de "cuidados" (para ser bem amena) de um legítimo(?) representante de Deus, para com sua comunidade.
(Conheça o autor)

Podres poderes...

Sobre o caso da menina de 9 anos estuprada pelo padrasto (ver post de 09/03), a igreja, agora, muda o seu discurso, em nome dos podres poderes da 'santa' política...
Acompanhe aqui

Segunda-feira, Março 09, 2009

Os pecados da Santa Igreja


Estou, infelizmente, por várias razões, algum tempo afastada deste espaço. Gostaria de voltar, neste dia dedicado à mulher, postando um poema ou qualquer outro tipo de expressão artística, que é ao que se destina este blog.

No entanto, hoje, no Dia Internacional da Mulher, preciso registrar minha indignação sobre o caso da menina de 9 anos!!, violentada sexualmente e engravidada de gêmeos pelo padrasto, na cidade de Alagoinha, interior de Pernambuco. O monstro, que molestava continuamente a menina desde seus 6 anos e também a irmã de 14 – deficiente física e mental –, ainda teve a ousadia de dizer que as meninas o “provocavam”!

Sabemos que monstruosidades como essa acontecem, todos os dias, pelo mundo afora. Mas este caso, em especial, horroriza não apenas pela crueldade de um crime hediondo, como também pela atitude, no mínimo, pecaminosa da Igreja Católica: fielmente representada pelo arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a mãe da menina por ter permitido interromper a gravidez da filha.

Sendo que os médicos que acompanharam o caso concluíram que somente o aborto salvaria a vida daquela criança subnutrida e franzina. Isso sem contar que, tendo (apenas!!) 9 anos, e, portanto, com os órgãos ainda em formação, não suportaria carregar mais duas crianças em seu pequenino ventre.

Mas essa, ainda, não era uma razão suficientemente forte para a Santa Igreja Católica que, na pessoa de dom José, puniu também os médicos pelo crime de aborto. (É importante dizer que, em momento algum, dom José sequer mencionou o estuprador). Para dar a “última paulada”, num comentário aterrorizador, disse ainda que o crime de aborto é pior do que o de estupro.

Diante desse absurdo, fico aqui me perguntando: para quem, neste caso, o crime de aborto é pior? Quem determina isso? É Deus? Ou são os homens da Santa Igreja?

Não discuto a posição da Igreja ser contrária ao aborto. Envolve princípios. Mas temos de pensar, antes de tudo, que cada caso é um caso. Temos de pensar e agir, antes de tudo (uma vez que a menina corria risco de morrer) com misericórdia. Não é isso que prega a Igreja? Neste caso, ao excomugar mãe e equipe médica, a Igreja Católica, mais uma vez na sua história, transgrediu suas próprias leis. E, pecou.

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

Consciência Negra: A verdadeira abolição

O 20 DE NOVEMBRO TRATA DA DATA DO ASSASSINATO DE ZUMBI, EM 1665, O MAIS IMPORTANTE LÍDER DOS QUILOMBOS DE PALMARES, QUE REPRESENTOU A MAIOR E MAIS IMPORTANTE COMUNIDADE DE ESCRAVOS FUGIDOS NAS AMÉRICAS, COM UMA POPULAÇÃO ESTIMADA DE MAIS 30 MIL.
PALMARES DUROU CERCA DE 140 ANOS: AS PRIMEIRAS EVIDÊNCIAS DE PALMARES SÃO DE 1585 E HÁ INFORMAÇÕES DE ESCRAVOS FUGIDOS NA SERRA DA BARRIGA ATÉ 1740, OU SEJA, BEM DEPOIS DO ASSASSINATO DE ZUMBI. EMBORA TENHAM EXISTIDO TENTATIVAS DE TRATADOS DE PAZ OS ACORDOS FRACASSARAM E PREVALECEU O FUROR DESTRUIDOR DO PODER COLONIAL CONTRA PALMARES.
HÁ 32 ANOS, O POETA GAÚCHO OLIVEIRA SILVEIRA SUGERIA AO SEU GRUPO QUE O 20 DE NOVEMBRO FOSSE COMEMORADO COMO O "DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA", POIS ERA MAIS SIGNIFICATIVO PARA A COMUNIDADE NEGRA BRASILEIRA DO QUE O 13 DE MAIO. "TREZE DE MAIO TRAIÇÃO, LIBERDADE SEM ASAS E FOME SEM PÃO", ASSIM DEFINIA SILVEIRA O "DIA DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA" EM UM DE SEUS POEMAS.
EM 1971, O 20 DE NOVEMBRO FOI CELEBRADO PELA PRIMEIRA VEZ. A IDÉIA SE ESPALHOU POR OUTROS MOVIMENTOS SOCIAIS DE LUTA CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL E, NO FINAL DOS ANOS 1970, JÁ APARECIA COMO PROPOSTA NACIONAL DO MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO.

SER E NÃO SER

Oliveira Silveira

O racismo que existe,
o racismo que não existe.
O sim que é não,
o não que é sim.
É assim o Brasil
ou não?

Oliveira Silveira nasceu em 1941, no interior de Rosário do Sul/RS. É Professor e militante do Movimento Negro. Sugeriu e atuou na evocação do dia 20 de novembro, data lançada nacionalmente pelo Grupo Palmares, de Porto Alegre, em 1971. Publicou dez livros, dentre os quais "Banzo Saudade Negra", 1965.
  • Fontes:
    http://www.brazilianmusic.com/aabc/literature/palmares/lino.html
    http://www.mundonegro.com.br
    http://bayo.sites.uol.com.br/historicocadernosnegros.htm

Terça-feira, Novembro 04, 2008

Barack Obama e a concretização(?) do sonho de King


“Agora é hora de concretizar as promessas da democracia”.
(Martin Luther King, em Washington, D.C., por Trabalho e Liberdade, em 28 de agosto de 1963)

“Estas eleições não são de ‘negros contra brancos’, mas sim do ‘passado contra o futuro’”. (Barack Obama, em seu discurso na Carolina do Sul, em janeiro de 2008)

“Concluo dizendo que cada um de nós deve manter a fé no futuro”.
(Martin Luther King, na Peregrinação pela Liberdade, Washington, D.C., 17 de maio de 1957)

Não costumo falar ou escrever sobre política, mas, hoje, excepcionalmente, o faço. É dia de eleição presidencial nos EUA, e estamos – o mundo! – apostando todas as fichas na vitória no candidato democrata Barack Obama. Não somente pela razão de, se eleito, vir a ser o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos da América, mas também de trazer à tona um dos sonhos de liberdade e igualdade de Martin Luther King: “o nascimento de uma nova nação”, fortemente enraizado no ideal do “sonho americano”.

“Changing we need” é o ponto central nos discursos do senador em sua corrida à Casa Branca, visando uma nação justa. Essa mesma justiça, a que todos os americanos teriam direito - de acordo com a Constituição e a Declaração da Independência daquele país, cuja promessa era a de que todos os homens, negros e brancos igualmente, tivessem garantidos os “direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade” - foi a principal motivação dos discursos do pastor, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1964.

Mais do que como estratégia política, o discurso de Obama, assim como o de King, soa como um apelo à consciência. King acreditava no triunfo de “negros e brancos, juntos” compartilhando um propósito comum. E Obama é exatamente isto: o negro e o branco, juntos!, conforme disse em um de seus discursos: "Nestas eleições não se trata de escolher segundo a região de cada um, a religião ou o gênero. Não se trata de ricos contra pobres, jovens contra velhos, nem brancos contra negros. Trata-se (de uma batalha) do passado contra o futuro".

E então a história se repete. Esperamos, neste caso, que não em sua totalidade... Martin Luther King, em 3 de abril de 1968, disse: “Bem, não sei o que acontecerá agora. Dias difíceis virão. Pois eu estive no topo da montanha”. No dia seguinte, um tiro calaria a sua voz, mas não seus sonhos e ideais.

Se dessa vez não houver “pane no sistema” na apuração dos votos, Barack Obama chegará ao topo da montanha, pois, como diria King, “seria fatal para a nação ignorar a urgência do momento”. É o momento de lembrarmos que ele tinha um sonho, e, gosto de acreditar, esse sonho está a um passo de se concretizar, nas palavras do senador de Illinois. "Sim, podemos mudar tudo isto. Podemos mudar nossa nação e construir um futuro novo". Assim seja.

Esperamos que suas ações correspondam às suas palavras.

“Oh, Deus, misericordioso Pai do Céu, ajude-nos a ver as revelações que vêm dessa nova nação”. (M. L. King, Montgomery, Alabama, em 7 de abril de 1957).

Referências:

CARSON, Clayborne & SHEPARD, Kris. (Orgs) Um apelo à consciência: os melhores discursos de Martin Luther King. Tradução de Sergio Lopes; apresentação da edição brasileira e notas de Arthur Ituassu. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

Sábado, Agosto 16, 2008

Li, gostei e recomendo

"O diabo que te carregue" (romance, 2006), de Stella Florence*, é um livro de leitura fácil, descomplicada, objetiva. Com sua escrita leve e bem-humorada, a autora aborda um tema bem comum nos dias atuais: a separação de casais, que, quase sempre, não é nada amigável... É leitura bastante interessante mesmo para aquele(a)s que não estejam passando por esse difícil momento. Difícil porque uma separação nunca vem sozinha: vem sempre acompanhada de outros sentimentos nada fáceis de serem administrados... Ainda assim, dei muita risada, algumas cenas são hilárias como esta aí. Quem já passou por isso sabe que é desse jeito mesmo! ;-)
"É inevitável sentir raiva do seu ex, tanto quanto é inevitável chover em Ubatuba. Por mais que ele seja uma pessoa boa e blábláblá, agora ele é um ex-marido e ex-maridos são feitos para ser, pelo menos nos primeiros meses da separação, no máximo, tolerados. Por isso, quando seu ex te ligar para saber das crianças, ceife o sorrisinho de boa moça da sua cara, pare de mentir para si mesma e, ao desligar o telefone, grite alto o bastante para que você possa ouvir o que só a você interessa: 'Que o diabo te carregue, seu cretino!'. Com exclamação, por favor. E muito bem pronunciado, fazendo as palavras arranharem a garganta. Depois você pode experimentar variações sobre o mesmo tema. Vá comer quiabo com tofu no meio do inferno! Vá fazer a barba com gilete enferrujada no vale do Belzebu! Vá arrancar os dentes com o dr. Mefisto! Nem sempre é necessário gritar, você pode sibilar, falar fininho e em falsete coisas como: por que você não morre? Ou então: o que você acha de eu despejar um tubo de Superbonder no seu pinto? Ou ainda: você já mascou seu fardo de capim hoje, meu bem?
A não ser que você já tenha alcançado as culminâncias da santidade, é importante assumir as raivas e mágoas que sente do seu ex. Sem admiti-las como filhas legítimas da sua dor, sem reconhecer-lhes a presença, sem olhar bem fundo nos seus olhos remelentos, elas nunca vão te deixar em paz. E paz é tudo o que se quer depois de uma separação."
*Stella Florence nasceu em São Paulo (onde vive até hoje) aos 14 de abril de 1967, tem uma filha, 30 tatuagens. É autora de seis livros, são eles: Hoje Acordei Gorda (contos, 1999); Por Que os Homens Não Cortam as Unhas dos Pés? (contos, 2000); Ele me Trocou por Uma Porca Chauvinista (contos, 2001); Ciúme, Chulé e um Apelido Ridículo (romance, 2002); Ser Menina é Tudo de Bom! (crônicas, 2005), todos pela Editora Rocco.

Sexta-feira, Agosto 15, 2008

Poesia Afro-Brasileira Contemporânea

Vozes-mulheres
Conceição Evaristo*

A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

A voz de minha filha recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem - o hoje - o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.



* Maria da Conceição Evaristo de Brito, nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1946. Em 1973, depois de ter concluído, em 1971, o antigo Curso Normal pelo Instituto de Educação de Minas Gerais, presta concurso no Rio de Janeiro e se ingressa no magistério público. É graduada em Letras (Português-Literatura) pela UFRJ. É mestre em Literatura Brasileira pela PUC/RJ e Doutoranda em Literatura Comparada na UFF. Esteve como palestrante em 1996, nas cidades de Viena e de Salzburgo/Áustria e, em 2000, Mayagüez, Porto Rico, falando sobre Literatura Afro-brasileira.
Seus poemas são publicados, anualmente, desde 1990, na coletânea Cadernos Negros, do grupo Quilombhoje.
Publicou dois romances intitulados “Ponciá Vivêncio” (2003) e “Becos da Memória” (2006).

Domingo, Agosto 10, 2008

A poesia feminina afro-brasileira e africanas de LP

Estive ausente deste espaço durante todo o mês de julho, mas foi por um motivo justo: tive de entregar o trabalho final para a conclusão do curso de pós-graduação em Língua Portuguesa. O tema do meu artigo foi a poesia feminina afro-brasileira e africanas de língua portuguesa, cujo objetivo principal era verificar o discurso comum presente entre as seis poetisas estudadas. Infelizmente, apenas uma de cada país, por absoluta falta de espaço: o texto deveria ter, no máximo, vinte e cinco páginas.

As poetisas selecionadas foram: Alda Lara, de Angola; Alzira Cabral, de Cabo Verde; Odete Semedo, da Guiné-Bissau; Noémia de Sousa, de Moçambique; Manoela Margarido, de São Tomé e Príncipe e, por fim, Conceição Evaristo, do Brasil.

Com essa pesquisa aprendi um pouco mais sobre África e sua literatura. Apesar de todos os pesares que rondam o Continente Africano há, pelo menos, cinco séculos - e mesmo agora em tempos de independência - é sempre fascinante conhecer as raízes e a cultura desses povos que os livros de História pouco, ou quase nada, revelam.

Num dado ponto da minha pesquisa, li a seguinte frase que me deixou indignada: “a mulher é o negro do mundo”. Só neste momento é que atinei para o fato de que o meu trabalho, mais do que uma pesquisa, seria um desafio. E foi.

A realização desse trabalho permitiu-me concluir, com alguma tristeza, o quão incipientes são a literatura africana e a afro-brasileira, sobretudo a produzida por mulheres...

A literatura negra contemporânea, tanto em África portuguesa como no Brasil, ainda não tem o estatuto de “literatura oficial”. Infelizmente, essa literatura ainda não é suficientemente visível e nem reconhecida – pelo menos não o tanto que merece – pelos chamados “altos círculos literários”.

A poesia negra em geral só começou a ser publicada muito recentemente no Brasil: a partir dos anos 70. Coincidentemente – ou não(?) – é a mesma época de luta pela libertação colonial em África. Nesse ponto da história, o brasileiro afrodescendente assume com mais veemência sua Negritude, direcionando seus discursos de liberdade contra um sistema de total preconceito contra esse povo.

Assim como o africano o afro-brasileiro solta a voz contra as injustiças sociais sofridas ainda pelos resquícios da escravidão – um passado que teima em não passar! – e expressa sua revolta através da poesia.

As vozes-mulheres estudadas na pesquisa apresentam em comum a recuperação da dignidade perdida, de procura e de afirmação da identidade nacional: tanto as poetisas afro-brasileiras como as africanas, cada uma a seu modo, cada uma com seu estilo próprio, com sua voz única e específica.

O discurso comum aos dois continentes, nos seis poemas analisados, é o de mulheres socialmente engajadas, em busca do “eu” mais profundo e verdadeiro, em busca de suas raízes, num mergulho nas profundezas turbulentas de um passado “hediondo”, “inconseqüente” que insiste em se fazer presente...

O sentido de africanidade também é muito presente no discurso dessas mulheres; é tema recorrente um querer “ser africana”. Escrevem uma “realidade” que se revela repleta de dor, mas também de resistência. O eco dessas vozes-mulheres, africanas e afro-brasileiras, ressoa cada vez mais forte, em busca, de uma vez por todas, de “liberdade, ainda que tardia”.

Em Nome do Pai ou Um Suspiro de Felicidade

Ela morava com seu avô e mais três irmãos. Sabia que tinha um pai. Sabia o seu nome, onde morava, como vivia. Fisicamente era magro, pele branca, estatura mediana, cabelos castanhos claro e olhos cor de mel. Podia-se dizer que era um homem até bonito, embora fosse alcóolatra. Fazia-se “presente” de vez em quando. Algumas das vezes, até sóbrio...

Comemorar o dia dos pais era particularmente difícil para aquela menina, principalmente quando na escola a professora pedia a bendita composição em homenagem aos pais. A professora, insensível à sua angústia, não atinava ao fato de que a menina não tinha uma família padrão para a época: seus pais eram, além de separados, ausentes. Como ela nunca tivera o pai dos seus sonhos – aquele dos passeios aos domingos; aquele que ela pudesse sentir que estaria sempre por perto nas situações de medo; ou, simplesmente, aquele que lhe dissesse “filha, eu sou seu pai, estou aqui, conte comigo” – sempre perguntava: “professora, posso fazer a composição para o vovô?" E, incrivelmente!!, a professora respondia: “não, tem que ser para o papai”.

A menina, então, ano após ano, fez suas composições em homenagem ao pai dos seus sonhos. Assim, satisfazia à professora - que sempre lhe dava grau máximo pelos seus textos, sem se importar se correspondia ou não à realidade – e também a ela própria: pois, ali, no papel, em suas estórias, podia “inventar” o pai que quisesse.

Mais alguns anos se passaram e, desta vez sem pressões, decidiu fazer uma verdadeira homenagem ao seu pai. Mas para qual dos dois seria? O imaginário ou o real? Isso já não era mais importante... Aquela menina crescera e escreveu uma composição que começava assim:

Era grande a alegria que eu sentia, todas as tardes, sempre às 17h, quando acompanhava papai até à padaria da esquina.

Esse momento era esperado com ansiedade durante todo o dia. Primeiro, porque papai era somente meu naquele itinerário: de casa para a padaria. Segundo, porque, perto das 17h, eu já sentia o cheiro do suspiro vindo daquela casa de pães... Nossa! uma verdadeira iguaria!

Esta era uma cena diária – pena que só acontecia de dezembro a março - nos três meses de férias que passávamos, meus irmãos e eu, com papai: eu sentava na calçada em frente à nossa casa, esperava papai chegar do trabalho, pontualmente às 16h30. Quando papai aparecia lá no início da rua, eu corria para encontrá-lo e, íamos, então, ao suspiro.

"Seu" Joaquim, o dono da padaria, fugia das características de um português autêntico: era magrinho, tinha bom humor e parecia que estava sempre feliz. Contava muitas histórias sobre papai, pois o conheceu ainda bem pequeno - papai mora, há 78 anos, na mesma casa em que nasceu!! Dizia que papai, assim como eu, gostava de comer suspiros todos os dias. Dizia, também, que o "amor" era o ingrediente principal da receita de suspiros de dona Margarida, sua esposa, já falecida, com quem aprendeu a prepará-los.

Na época não entendi muito bem, mas, hoje, tenho certeza de que as "boas energias" contidas naquele suspiro quentinho, saído do forno no exato momento em que papai chegava na esquina da padaria, é uma das minhas melhores lembranças...

A imagem da felicidade, para mim, era aquela rotina simples: papai e eu, e o suspiro quentinho da padaria da esquina.
Veronica Benesi
Belo Horizonte, 10 de agosto de 2008.

Domingo, Junho 15, 2008

Pense nisto...

"Experiência não é o que aconteceu com você, mas o que você fez com o que lhe aconteceu."
(Aldous Huxley )

Quinta-feira, Junho 12, 2008

Uma Singela Homenagem aos Manos Africanos

ÁFRICA

(Aos manos Africanos)


África
O que fizeram de ti...
.
África Negra
De tantas riquezas
Quanto mal a ti
Fizeram
À tua gente
À tua beleza
.
África Incolor
- porque a alma
não tem cor -
O que fizeram a ti
Ao longo
Desse monstruoso
Holocausto
- que perdura! -
De opressão e de dor

África Mãe
O que fizeram a ti...
.
Alheios
Ao teu consentimento
Teus filhos
Foram arrancados
Do teu seio
E acorrentados
Passaram a viver
Suas Histórias de porão
Por mares
Nunca d’antes navegados
O mar da escuridão...

O mesmo mar
Que tuas lágrimas
Ajudaram a salgar
.
África Retinta
Teu tão extenso
Continente
Diz a toda a gente
Tu és Preta
Tu és Black
Tu és Negra
Tu és Branca
És Negra Assa
[1]
Tu és Fula
[2]
És Mama-África
.
Estás em todos
Os lares
Em todos os Cantos
E recantos
Desses Mares
.
Mas não apenas
Os de Lusitanos ares
.
Também, aqui,
Na América do Sul
Há uma gente
Que de irmã te chama
Que é parte de ti
E do teu drama
.
Uma gente
Que se orgulha
De ter teu sangue
Nas veias
Corrente
Teus descendentes
.
Somos nós
Da Terra das Palmeiras
Onde canta o sabiá
Teus manos
De cá
Das terras Brasileiras
.
Hoje um oceano nos separa
Mas aqui deixaste
Uma herança de base
A tua fala
Estás cotidianamente
Presente
No “pirão”, na “quitanda”,
No “samba”, no “fubá”...
- “Oxalá”!
.
África Diáspora
Agora mais do que nunca
Levanta-te
Toca teu tambor
Mostra ao mundo
A Cor
Desse teu imenso
Valor
.

(Veronica Benesi) Belo Horizonte, MG, Brasil, 02 de junho de 2008.


[1] Assa (A) — o negro albino
[2] Fula (A) — de cor parda e brilhante (filha de pessoa mulata e negra)