terça-feira, outubro 12, 2010
UM POETA E UM POEMA (9)
domingo, junho 13, 2010
UM POETA E UM POEMA (8)
terça-feira, abril 20, 2010
UM POETA E UM POEMA (7)

Esquece o que o seu pai disse,
Vê se muda essa situação.
Sou negra!
Estou aqui diante dos seus olhos,
Esperando você despir o seu preconceito,
Pra gente encontrar um jeito de ser feliz.
Ah, o meu cabelo natural, isento de culpa?
Vai bem, obrigada.
Que bom você ter sido espetado pela consciência,
Que bom você ter sido cutucado pela consistência.
Será que dá pra você tirar essa lente distorcida,
Que tanto atrapalha o nosso contato?
In: Cadernos Negros Volume 29: poemas afro-brasileiros. pp 51 e 52 / organizadores Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa. São Paulo: Quilombhoje, 2006.
terça-feira, março 16, 2010
UM POETA E UM POEMA (6)
Humanidade
(Alda Espírito Santo)
Quando o homem de todos os planetas
For capaz de se revelar
À altura do outro ser humano
No ciclo da existência
E compreender,
Compreender
Que todos os seres vivos
São iguais
No nascimento na morte
E nas estruturas físicas
Que compõem a humanidade
Nesse dia, será uma festa eterna
E o sol
Rodará finalmente
À volta de todos os continentes.
Compreender será então:
Dar vida real
A todos os seres dos planetas viventes
Planetas chamo eu
Às esferas humanas
Sem corredores estanques
(In: É nosso o Solo Sagrado da Terra: poesia de protesto e luta. 1978, pp.45-46)
Informações bibliográficas e foto tiradas daqui.
domingo, dezembro 06, 2009
UM POETA E UM POEMA (5)
Jornalista, nascida em São Paulo em 1958, Esmeralda Ribeiro faz parte da Geração Quilombhoje, que atua nos movimentos de combate ao racismo e na construção de uma ‘Literatura Negra’, a partir do resgate da memória e das tradições africanas e afro-brasileiras. A autora participa regularmente de Seminários e de Congressos nacionais e internacionais, sempre apresentando estudos sobre escritoras afro-descendentes, com o objetivo de incentivar uma maior atuação da mulher negra na literatura. Nos anos 80, foi das poucas mulheres a integrar as discussões do I e do II Encontros de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros: “quero falar de ‘nós’ porque o tempo sempre nos deixou atrás das cortinas, camuflando-nos geralmente em serviços domésticos. Agora, o tempo é outro. É desse tempo que vou falar”. (Criação crioula, nu elefante branco, p. 59)de mim
sob o poente
mas,
vou me recompondo
com o Sol
nascente,
Tem
Pe
Da
Ços
mas,
diante da vítrea lâmina
do espelho,
vou
refazendo em mim
o que é belo
Naufragam fragmentos
de mim
na coca
mas, junto os cacos, reinvento
sinto o perfume de um novo tempo,
Fragmentos
de mim
diluem-se na cachaça
mas,
pouco a pouco,
me refaço e me afasto
do danoso líquido
venenoso
Tem
Pe
Da
Ços
tem
empilhados nas prisões,
mas
vou determinando
meus passos para sair
dos porões
tem
fragmentos
no feminismo procurando
meu próprio olhar,
mas vou seguindo
com a certeza de sempre ser
mulher
Tem
Pe
Da
Ços,
mas
não desisto
vou
atravessando o meu oceano
vou
navegando
vou
buscando meu
olhar negro
perdido no azul do tempo
vou
vôo,
terça-feira, outubro 27, 2009
UM POETA E UM POEMA (4)
No poema "Os herois", Conceição Lima recorre às lembranças do passado para onde "recuam em silêncio as estátuas". A poeta convida o leitor a uma reflexão sobre a realidade de seu país no período pós-independência, uma vez que vinte e nove anos se passaram (o poema foi tirado do livro "O útero da casa", de 2004), mas alerta para o fato de que boa parcela dos "mortos que morreram sem perguntas", através de seus descendentes "regressam devagar de olhos abertos".quinta-feira, outubro 01, 2009
UM POETA E UM POEMA (3)
A poeta da vez é Christina Ramalho. Carioca, nascida em 1964, a Chris é mestre e doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além de artista plástica (dona de belíssimas pinturas!), é também escritora de mão cheia: ensaísta, cronista, contista, poeta, crítica literária, tendo vários livros publicados.Foi minha professora de Literatura no curso de Letras. É, para mim, um exemplo de profissional e, acima de tudo, de ser humano. (Imagem tirada daqui).
Mundo, mundo, vasto mundo,
Na face trago as lágrimas
Peço a Deus que me conceda
Espero resposta deitada
Saiba mais sobre a autora aqui e aqui
quarta-feira, setembro 16, 2009
UM POETA E UM POEMA (2)

Noémia deixou Maputo com destino a Lisboa em 1951, tendo dali emigrado para Paris em 1964. Regressou a Lisboa em 1975, onde residiu e trabalhou como jornalista e tradutora até o seu falecimento em dezembro de 2002.[1]
Seu poema Magaiça[2] aponta para o trabalhador moçambicano que emigrava para as minas do Rand ou compounds (áreas de exploração) da África do Sul. Sonhando com uma vida melhor, retorna à terra na condição em que partira, miserável como sempre.
Magaíça
engoliu o mamparra[3],
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios,
tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.
E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse[4], voltou!
E com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado,
embrulhado em ridículo.
Às costas -- ah, onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça? --
trazes as malas cheias do falso brilho
dos restos da falsa civilização do compound[5] do Rand[6].
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
à cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone[7]...
A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.
[1] Informações biográficas retiradas de http://koluki.blogspot.com
[2] Magaíça - mineiro moçambicano regressado da África do Sul
[3] Mamparra - pessoa rústica
[4] Nhanisse - deveras, na verdade
[5] Componde - os acantonamentos ou «reservas» de trabalhadores na África do Sul (do inglês compound); barracão, camarata
[6] Rand - (top. sul-afr.) Unidade monetária principal da África do Sul e da Namíbia
[7] Jone - abreviatura de Joanesburgo = Djoni (= John, Johne) - minas do Rand.
sábado, agosto 08, 2009
UM POETA E UM POEMA
histórias de adormecer
quando o obus
rebenta no quintal
não me peças luz
se as janelas estão trancadas
não me lembres dos traumas
nem fales de fantasmas
quando eu sonho com
todos os companheiros
que sinto perder na batalha
a cada tempo
não me perguntes sobre o amor
que não tive
nem pelo coração, que esse,
faz tempo, jaz gelado
na granada do meu peito.
Porque procuras os meus olhos
se há muito foram perfurados
pelos estilhaços?
Como te atreves a querer
que te dê a mão se ainda agora
a ofereci em troca de pão?
E, sobretudo, não me perguntes
pelo que não disse
pois a minha boca
há muito se fechou à força
do fuzil do homem
que em mim te semeou.

