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terça-feira, outubro 12, 2010

UM POETA E UM POEMA (9)

Vera Duarte nasceu em Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde, em 1952. É juíza desembargadora e foi ministra da Educação. Dentre os prêmios literários, destacam-se Tchicaya U Tam'si de Poesia Africana 2001 e o SONANGOL 2003 pelo romance "A Candidata". Publicou em poesia "Amanhã Amadrugada" e "O Arquipélago da Paixão", entre outros artigos e ensaios.

(Informações tiradas daqui.)
(Foto daqui.)



Momento VI
(desabafo)

Vai e grita pelas achadas imensas
que a vida se conquista
contra a violência e a morte.

Diz
do amor que brota das areias
do mar solitrário
do abraço fecundo que nasce
dos confins de nossos seres.

Diz tudo
mas não digas que te amei
-- e amo --
pois chega-me a morte pela recusa.
Não quero morrer duas vezes!

(In, Poesia Africana de Língua Portuguesa: antologia. I Dáskalos, Maria Alexandre. II Apa, Livia. III Barbeitos, Arlindo. - Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003. pp. 167) 

domingo, junho 13, 2010

UM POETA E UM POEMA (8)

Maria Manuela de Abreu Maia nasceu em 1939, em Bela Vista, Huambo, Angola.

Em 1975 mudou-se para Portugal. Para além de funcionária pública, Manuela Abreu colaborou em "Panorama de Artes e Letras" do Diário de Luanda, em "Artes e Letras" d'A Província de Angola e "Convergência" de Ecos do Norte. Publicou, em 1994, o livro de poesia Em Cada Manhã de Longe. (Informações tiradas daqui).

E Pede o Silêncio

Espero na praia
as ondas, a espuma
e chagam-me conchas,
presentes de bruma
e barcos azuis
com lemes de além
destinos de praia
e de olhos também.

E a noite me vê
ainda a esperar
que tragam poemas
dos livros do mar
teus barcos azuis
que chegam agora
à praia dos olhos
à praia que chora.

E pede o silêncio
urgente que saia
dos olhos de barco
meu corpo de praia.

(In Cadernos Sol n. 12. Coletânea de poetas e poesia de Angola. Caxinde Editora e Livraria. 2002).


terça-feira, abril 20, 2010

UM POETA E UM POEMA (7)

CRISTIANE SOBRAL nasceu no Rio de Janeiro, em 1974, e reside em Brasília desde 1990. Como escritora, possui poemas e contos publicados na Antologia Cadernos Negros, edições 23, 24, e 25. Graduada como atriz habilitada em Interpretação Teatral pela Universidade de Brasília, sendo a primeira negra a ganhar o título acadêmico.
          Trabalha preferencialmente a poética do amor, da desrepressão e do acesso à consciência. Sua poesia inspira-se na experiência, na observação do comportamento, na mudança de atitude.

Fratricídio
(Cristiane Sobral)

Corrupção preta dói demais
Chibatada dentro da senzala fere infinitamente.
Até tu, Zumbi?
Espera aí, Feitor!
"Pouca tinta", eu?

Separe todos os matizes da negritude brasileira
Desintegre todas as identidades
Ficaremos com um nada aguado.
O mestiço não é nem o sim nem o não, é o talvez.
Mentira!

Pergunte ao porteiro da prédio
Interrogue o policial
Eles não terão dúvida em apontar a consistência da
minha melanina.

Sou negra
Meus dentes brancos trituram qualquer privilégio
retinto
Meu sangue negro corrói a hipocrisia parda
Mela o mito da democracia racial
Corre maratonas libertárias negrófilas
Rasga as entranhas e reluz.
Das cinzas à fênix.

No fundo do olho há uma verdade viva
Muito além da cor.

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Lente de Contato

Será que você pode olhar no fundo dos meus olhos?
Será que você pode acreditar na sua visão?
Esquece o que o seu pai disse,
Vê se muda essa situação.

Sou negra!
Estou aqui diante dos seus olhos,
Esperando você despir o seu preconceito,
Pra gente encontrar um jeito de ser feliz.

Ah, o meu cabelo natural, isento de culpa?
Vai bem, obrigada.

Que bom você ter sido espetado pela consciência,
Que bom você ter sido cutucado pela consistência.

Será que dá pra você tirar essa lente distorcida,
Que tanto atrapalha o nosso contato?

In: Cadernos Negros Volume 29: poemas afro-brasileiros. pp 51 e 52 / organizadores Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa. São Paulo: Quilombhoje, 2006.

Foto e informações bibliográficas tiradas daqui e daqui.

terça-feira, março 16, 2010

UM POETA E UM POEMA (6)

Alda Espírito Santo, figura de primeira linha na luta pela independência são-tomense, faleceu no último dia 09 de março, em Luanda, aos 83 anos.
Nascida em abril de 1926, Alda Espírito Santo, também conhecida por Alda Graça, foi educada em Portugal e é uma figura emblemática da luta pela independência de São Tomé e Príncipe. Foi pela causa nacionalista que interrompeu os estudos universitários.
Depois da independência, manteve-se como destacada figura política, desempenhando cargos de ministra da Educação, da Cultura e da Informação, de deputada e de presidente da Assembleia Popular.

Humanidade
(Alda Espírito Santo)

Quando o homem de todos os planetas
For capaz de se revelar
À altura do outro ser humano

No ciclo da existência
E compreender,
       Compreender
Que todos os seres vivos
São iguais
No nascimento na morte
E nas estruturas físicas
Que compõem a humanidade

Nesse dia, será uma festa eterna
E o sol
Rodará finalmente
À volta de todos os continentes.

Compreender será então:
Dar vida real
A todos os seres dos planetas viventes

Planetas chamo eu
Às esferas humanas
Sem corredores estanques

(In: É nosso o Solo Sagrado da Terra: poesia de protesto e luta. 1978, pp.45-46)

Informações bibliográficas e foto tiradas daqui.

domingo, dezembro 06, 2009

UM POETA E UM POEMA (5)

Jornalista, nascida em São Paulo em 1958, Esmeralda Ribeiro faz parte da Geração Quilombhoje, que atua nos movimentos de combate ao racismo e na construção de uma ‘Literatura Negra’, a partir do resgate da memória e das tradições africanas e afro-brasileiras. A autora participa regularmente de Seminários e de Congressos nacionais e internacionais, sempre apresentando estudos sobre escritoras afro-descendentes, com o objetivo de incentivar uma maior atuação da mulher negra na literatura. Nos anos 80, foi das poucas mulheres a integrar as discussões do I e do II Encontros de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros: “quero falar de ‘nós’ porque o tempo sempre nos deixou atrás das cortinas, camuflando-nos geralmente em serviços domésticos. Agora, o tempo é outro. É desse tempo que vou falar”. (Criação crioula, nu elefante branco, p. 59)

OLHAR NEGRO
Esmeralda Ribeiro

Naufragam fragmentos
de mim
sob o poente
mas,
vou me recompondo
com o Sol
nascente,

Tem
Pe
Da
Ços

mas,
diante da vítrea lâmina
do espelho,
vou
refazendo em mim
o que é belo

Naufragam fragmentos
de mim
na coca
mas, junto os cacos, reinvento
sinto o perfume de um novo tempo,

Fragmentos
de mim
diluem-se na cachaça
mas,
pouco a pouco,
me refaço e me afasto
do danoso líquido
venenoso

Tem
Pe
Da
Ços

tem
empilhados nas prisões,
mas
vou determinando
meus passos para sair
dos porões

tem
fragmentos
no feminismo procurando
meu próprio olhar,
mas vou seguindo
com a certeza de sempre ser
mulher

Tem
Pe
Da
Ços,

mas
não desisto
vou
atravessando o meu oceano
vou
navegando
vou
buscando meu
olhar negro
perdido no azul do tempo
vou
vôo,
 
(In: Cadernos negros: os melhores poemas, pp. 64-6)

Informações bibliográficas tiradas daqui
Foto tirada daqui

terça-feira, outubro 27, 2009

UM POETA E UM POEMA (4)

No poema "Os herois", Conceição Lima recorre às lembranças do passado para onde "recuam em silêncio as estátuas". A poeta convida o leitor a uma reflexão sobre a realidade de seu país no período pós-independência, uma vez que vinte e nove anos se passaram (o poema foi tirado do livro "O útero da casa", de 2004), mas alerta para o fato de que boa parcela dos "mortos que morreram sem perguntas", através de seus descendentes "regressam devagar de olhos abertos".

E, enquanto as estátuas silentes são reconhecidas pela "praça" por seus feitos valorosos, em "paisagens longínquas", os verdadeiros herois, os santomenses do dia-a-dia, clamam pelo resgate à dignidade "indagando por suas asas crucificadas". Onde está a tão sonhada, almejada, batalhada liberdade que a independência traz? Ou, pelo menos, deveria trazer...

Os Herois
Conceição Lima

Na raiz da praça
sob o mastro
ossos visíveis, severos, palpitam.
Pássaros em pânico derrubam trombetas
recuam em silêncio as estátuas
para paisagens longínquas.
Os mortos que morreram sem perguntas
regressam devagar de olhos abertos
indagando por suas asas crucificadas.

Sobre a autora: Maria da Conceição Costa de Deus Lima, em 1961, nasceu em Santana, na ilha de São Tomé, onde fez os estudos primários e secundários. Estudou jornalismo em Portugal, Em São Tomé e Príncipe trabalhou e exerceu cargos de direção na rádio, televisão e na imprensa escrita, tendo fundado, em 1993, o já extinto semanário independente "O País Hoje".
Atualmente reside Londres, onde trabalha como jornalista e produtora dos serviços de Língua Portuguesa da BBC.

Referência: LIMA, Conceição. O útero da casa. Lisboa: Caminho, 2004.

quinta-feira, outubro 01, 2009

UM POETA E UM POEMA (3)

A poeta da vez é Christina Ramalho. Carioca, nascida em 1964, a Chris é mestre e doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além de artista plástica (dona de belíssimas pinturas!), é também escritora de mão cheia: ensaísta, cronista, contista, poeta, crítica literária, tendo vários livros publicados.

Foi minha professora de Literatura no curso de Letras. É, para mim, um exemplo de profissional e, acima de tudo, de ser humano. (Imagem tirada daqui).

Sina
(Christina Ramalho)

Mundo, mundo, vasto mundo,
e eu que me chamo Raimunda,
feia de cara, boa de bunda,
terei uma solução?
Será que esta minha sina
de guardar a forma feminina
deixa mostrar em meu verso
quão vasto é o meu coração?

Na face trago as lágrimas
de cebolas e de paixões
e minhas pernas, fumês e amarelas,
passam no bonde das estações.
Amo inventando penas,
me ensinaram a amar assim...
Mundo, mundo, vasto mundo,
o que será que será de mim?

Peço a Deus que me conceda
nada pedir tudo ver.
Duro viver nesta terra estranha
onde ter entranhas faz padecer.
Vasto, vasto, mundo vasto,
te pergunto e me desgasto:
se o versejar é meu pasto,
terei eu o que comer?

Espero resposta deitada
de flanco sobre o lençol,
nos sonhos eu viro onda
e o sonho é meu farol.
E se disseres - levanta! -
levanto e vou para a faxina.
E se disseres - derrama! -
derramo em versos minha sina.

Mundo, mundo, amargo mundo...!
Mas doce é minha intenção
de velar tua amargura
com rimas de compreensão.
Mundo, mundo, amargo mundo,
não veja nisto submissão.
O que eu quero é uma voz
gritando suave como canção.


(In A Lírica Brasileira do Século XX, p. 136, de Anazildo Vasconcelos da Silva).

Saiba mais sobre a autora aqui e aqui

quarta-feira, setembro 16, 2009

UM POETA E UM POEMA (2)

Noémia de Sousa (1926-2002) – Moçambique

Noémia deixou Maputo com destino a Lisboa em 1951, tendo dali emigrado para Paris em 1964. Regressou a Lisboa em 1975, onde residiu e trabalhou como jornalista e tradutora até o seu falecimento em dezembro de 2002.[1]

Seu poema Magaiça[2] aponta para o trabalhador moçambicano que emigrava para as minas do Rand ou compounds (áreas de exploração) da África do Sul. Sonhando com uma vida melhor, retorna à terra na condição em que partira, miserável como sempre.

No contexto dos anos 40-50, a poesia funcionava como testemunho de uma condição humana e denúncia social e política, ainda que sob a forma de lamento ou piedade, pois era a fase da “poesia de combate”. Havia nesse período uma conscientização plena da Negritude --contrária à estética burguesa e imperialista-- que Noémia assume num interessante jogo linguístico: utiliza estrangeirismos para identificar uma tentativa de aculturação que não vingou (“o ser deslocado / embrulhado em ridículo”); a língua portuguesa, a do colonizador, para que essa denúncia pudesse atingir um grande número de leitores; e a língua materna, a língua da infânica, deixando claro que África é o seu lugar.

Magaíça
(Noémia de Sousa)

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra
[3],
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios,
tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse
[4], voltou!
E com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado,
embrulhado em ridículo.

Às costas -- ah, onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça? --
trazes as malas cheias do falso brilho
dos restos da falsa civilização do compound
[5] do Rand[6].
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
à cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone
[7]...

A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.


[1] Informações biográficas retiradas de http://koluki.blogspot.com
[2] Magaíça - mineiro moçambicano regressado da África do Sul
[3] Mamparra - pessoa rústica
[4] Nhanisse - deveras, na verdade
[5] Componde - os acantonamentos ou «reservas» de trabalhadores na África do Sul (do inglês compound); barracão, camarata
[6] Rand - (top. sul-afr.) Unidade monetária principal da África do Sul e da Namíbia
[7] Jone - abreviatura de Joanesburgo = Djoni (= John, Johne) - minas do Rand.

sábado, agosto 08, 2009

UM POETA E UM POEMA

Inicio hoje uma série que chamarei "Um poeta e um poema".


Ana de Santana é a poeta de estreia com um belíssimo poema que denuncia um tempo obscuro de guerra e de violência do qual foi vítima. Apesar de tanto sofrimento, o último verso de "Ralhete" nos dá uma pista clara da sensibilidade e pureza de sentimentos que não se abalam.

Ralhete
(Ana de Santana)

Não me cobres
histórias de adormecer
quando o obus
rebenta no quintal
não me peças luz
se as janelas estão trancadas
não me lembres dos traumas
nem fales de fantasmas
quando eu sonho com
todos os companheiros
que sinto perder na batalha
a cada tempo
não me perguntes sobre o amor
que não tive
nem pelo coração, que esse,
faz tempo, jaz gelado
na granada do meu peito.
Porque procuras os meus olhos
se há muito foram perfurados
pelos estilhaços?
Como te atreves a querer
que te dê a mão se ainda agora
a ofereci em troca de pão?
E, sobretudo, não me perguntes
pelo que não disse
pois a minha boca
há muito se fechou à força
do fuzil do homem
que em mim te semeou.

Sobre a autora: Ana de Santana é consultora e vive actualmente entre Londres e Lisboa, publicou «Sabores Odores & Sonho», poesia, União dos Escritores Angolanos (UEA), 1985. Leia mais